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04 Agosto 2020
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Quais são as características da Educação a Distância? É o mesmo que ensino remoto? Por que EaD não é adequada para o Ensino Fundamental, mas o ensino remoto emergencial é visto de forma positiva por parte de especialistas em educação e saúde ? O ano de 2020 deve ser considerado perdido pedagogicamente? Muitos são os questionamentos do sistema educacional no Rio de Janeiro, e no mundo, nesse momento.

O Portal MultiRio conversou sobre esses temas com Silvina Fernández, doutora em Educação pela UFF e coordenadora do curso de Pedagogia da UFRJ; e Giselle Ferreira, mestre em Educação pela Open University, no Reino Unido, onde também realizou o pós-doutorado nessa mesma área. Giselle lidera o grupo Discursos da Educação e Tecnologia, da PUC-Rio.

Silvina Fernández esclarece que a EaD surgiu como modalidade para chegar a pessoas que por diferentes motivos se encontravam afastadas do local de ensino. A ideia era chegar de outra maneira a quem queria estudar, mas não podia frequentar o curso no local onde era ministrado. "EaD é uma forma de mediar a relação de ensino com outro foco. A presença física não é possível, então se organiza o ensino de forma que, didática e pedagogicamente, possa ser realizado mesmo sem contato próximo".

Giselle Ferreira explica que o universo da EaD é fragmentado e recebe diversos nomes, mas historicamente sempre esteve ligado à educação de adultos, com propostas específicas, sendo flexível, adaptável e preocupado com a qualidade. "EaD massiva ou industrial pressupõe diversas fases de produção, um planejamento a longo prazo. Leva-se de um a três anos para se montar um curso de graduação, por exemplo. É um trabalho de equipe, que inclui designers, especialistas nos temas a serem tratados, advogados, pesquisadores e tutores (considerados os professores nesse sistema, aqueles que interagem virtualmente com os alunos, na ponta)”.

Silvina Fernández diz que "o ensino remoto praticado por parte das equipes escolares para manter o vínculo com seus estudantes atualmente não constitui EaD, pois não há dispositivos pedagógicos orientadores, o que modifica não somente a sequenciação didática, mas também o tipo de atividade, de conteúdo, de solicitações, de atividades exigidas do estudante. A especialista lembra também que a modalidade EaD demanda, por outro lado, disciplina do aluno para sozinho se organizar, estudar, realizar atividades, fazer devoluções; constituindo-se em outro tipo de comunicação, um processo mais solitário, impossível para as crianças pequenas, de acordo com a educadora. "Quando o aluno está em casa, não é o ritmo da escola, mas o da sua família, que pode não estar em condições de acompanhar o processo de aprendizagem. Além disso, há questões de desemprego e violência doméstica, que podem configurar um espaço inadequado para o estudo".

A coordenadora do curso de Pedagogia da UFRJ explica que no caso de crianças pequenas, até aproximadamente 8 anos,"precisamos de outros tipos de mediações, um relacionamento que envolva o sujeito na sua totalidade, inclusive na sua corporeidade, porque quanto menos idade tem a pessoa, a questão corporal é mais proeminente . “À medida que o sujeito cresce, se apropria da linguagem, das palavras, dos códigos, aprende, aos poucos, a conviver com as pessoas nos espaços sociais, vai sendo capaz de outros tipos de mediações, não somente aquelas que se dão pelo toque, pelo físico, pelo movimento, mas também pela palavra, por outros tipos de interações, que não são em um primeiro momento escritas, são mais oralizadas . Nessa fase da vida, o brincar, o toque são muito importantes no processo pedagógico. Todos esses tipos de mediações mais presenciais, de um brincar com o outro, compartilhar o brinquedo, ouvir juntos uma história, dar a mão ao colega etc. A mediação presencial é muito importante nessa fase da vida. Por isso, não é aconselhável que crianças sejam educadas principalmente e basicamente a distância. É preciso a presença das pessoas, da interação com os outros. Inclusive para os estudantes com deficiência, que são estimulados na sua socialização cognitivas, perceptivas", especifica Silvina.

O centro da questão, para Giselle, atualmente, é que a realidade do isolamento social se impôs e o ensino on-line foi a possibilidade que restou nesse momento. "É um debate complexo, com muitas partes interessadas. Em relação às crianças em casa, há desde situações familiares bastante favoráveis até configurações críticas, envolvendo abuso e fome. No meio desses extremos, muitos pais trabalham fora, os espaços de convivência são reduzidos e o acesso a máquinas e internet representam custos. Temos problemas de infraestrutura, de políticas públicas. Quem tem respostas fechadas ou está iludindo ou querendo vender algo. O artefato e a tecnologia não são a solução em si, nunca foram. Precisamos de turmas menores por professor, formação docente, visão sistêmica. Não há fórmula mágica.”

Como será o Ensino Fundamental se essa situação persistir?

Silvina diz que todos os esforços para manter o vínculo escola-família, com a promoção de interesse nos conteúdos científicos, culturais, educacionais, contribuirão para a retomada do ensino presencial quando for seguro o retorno à escola. Contudo, segundo a especialista, esse momento ainda não chegou. “Na situação que a gente está, com uma taxa de contágio ainda alta, a volta às unidades escolares é um perigo absoluto. Ninguém aprende com medo. As escolas terão famílias, professores e alunos com medo. É importante ponderar essa questão emocional, de se sentir vulnerável no espaço da escola", alerta.

Silvina lembra que a escola é justamente a possibilidade de as crianças serem estimuladas e convidadas a ampliar sua cultura e conhecimento. "Esse momento de isolamento social tem aprofundado as desigualdades sociais presentes na sociedade brasileira. Nem todas as famílias têm como prover conteúdos, que, em geral, são desenvolvidos pela escola. A escola é uma grande igualadora nesse sentido. Pelo menos, essa é a intenção da escola. Distribuir o conhecimento para todos, sem diferenças sociais, culturais e econômicas".

Ano letivo na berlinda

A interrupção das aulas presenciais traz o questionamento sobre a validade deste ano letivo.  Silvina reconhece que essa é uma questão de difícil resposta, mas dá uma sugestão. “Uma ideia é fazer um período letivo  que não termine em 31 de dezembro, mas que possa avançar em alguns momentos de 2021.  Como fazemos quando há greves e providenciamos um calendário de reposição". Ela diz que seria positiva alguma alternativa no sentido de não parar a trajetória educacional completamente. "Os estudantes que comprovarem estar aptos, passariam para o ano seguinte; aqueles que por algum motivo não conseguiram avançar tanto assim devem ser auxiliados pelo sistema educacional", detalha a educadora.

Para Giselle, perder o ano letivo de 2020 é o menor dos males a serem enfrentados. A educadora afirma que os questionamentos de fundo continuam sendo pedagógicos: o que queremos ensinar? Quem queremos formar? "Trata-se de um problema sistêmico, que precisa de políticas públicas e financiamento. A profissão docente não deve ser solitária. É preciso participar de redes de troca de experiências. O combate à desigualdade não é solução apenas para a Educação. Veja o caso da Saúde, por exemplo. Educação não é salvação. A mudança social é uma rede de aspectos relacionados", pondera a especialista.

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