08 Janeiro 2021
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Arte: Carlos Benigno, MultiRio, 2021

A Síndrome de Burnout tem ocupado, cada vez mais, as páginas das revistas, jornais, portais e demais mídias. É que a doença tem atingido um número expressivo de trabalhadores, principalmente professores, médicos, bombeiros e policiais, embora também atinja outros profissionais que trabalham em condições adversas. Para se ter uma ideia, segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, que tem vários livros publicados sobre saúde mental, de 40 a 45% dos professores do Rio de Janeiro estão afastados do trabalho por causa da doença. E pela série histórica, cerca de 20% deles nunca mais retornam ao trabalho, criando um buraco de quase uma geração inteira no mercado de trabalho.  

No ano passado, o diretor geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou, publicamente, que os distúrbios psíquicos vinham aumentando, de forma visível, em função do confinamento, do uso intensivo de novas tecnologias e das incertezas sobre o trabalho promovidas pela pandemia da Covid-19. Entre tais distúrbios, a Síndrome de Burnout.

Professores e pandemia

Se, nas atividades presenciais, as condições e os fatores estressantes de trabalho já promoviam esgotamento mental em um número expressivo de professores, durante a pandemia o estresse parece ter aumentado. Em outubro de 2020, a psicóloga Edwiges Parra escreveu em seu blog na revista VC S/A que a Síndrome de Burnout era uma das enfermidades que estava chamando a atenção dela devido ao crescimento do número de casos decorrentes da “mudança abrupta do novo estilo de trabalho, principalmente por conta do home-office que, inicialmente, foi romantizado”.  

Em pesquisa da UFPB com alunos e profissionais da área de Enfermagem, realizada em dezembro de 2020, professores declararam que o uso de tecnologias para dar aulas acarretava em mais trabalho, o que os obrigava a dedicar mais horas por dia às suas atividades laborais. Esse quadro parece ser comum aos demais professores, pois, meses antes, em maio, pesquisa do Instituto Península havia constatado que os docentes, de forma geral, precisavam preparar mais atividades para manter seus alunos estimulados, em meio a um quadro em que ainda tinham que aprender a trabalhar com novas tecnologias e a gerenciar o próprio tempo.

O Instituto Península também verificou que grande parte dos professores tinha dificuldade em dizer que não tinha tempo para atender todos os alunos e suas famílias, durante a pandemia. Reportagens realizadas pela MultiRio se depararam, inclusive, com professores que atendiam e tiravam dúvidas de boa parte da turma aos sábados e domingos, já que muitos estudantes só tinham acesso ao celular no fim de semana, quando os pais estavam em casa.  

O fato é que os estudos recentes indicam que o acúmulo de tarefas, a necessidade de adquirir novas habilidades e a dificuldade de se desligar do trabalho, entre outros fatores, levaram a uma sobrecarga de trabalho que, segundo as pesquisas, pode ter culminado em depressão, em crise de ansiedade ou em Síndrome de Burnout. A pesquisa da UFPB ainda alerta que estudos anteriores à pandemia, realizados pelo Programa de Pós-graduação em Modelos de Decisão e Saúde, já haviam detectado que o uso intensivo de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) potencializa distúrbios psíquicos.

O que é Síndrome de Burnout

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A psicóloga Sandra Calais. Frame do vídeo Saúde em Prática/Síndrome de Burnout, TV Unesp

Burn out é um verbo inglês que significa consumir uma chama até ela se extinguir totalmente, por não haver mais combustível para queimar. Por analogia com o significado do verbo, o psicólogo alemão Herbert Freudenberg batizou de Burnout o distúrbio psiquico-depressivo que colapsa a capacidade produtiva do profissional, a ponto dele não conseguir realizar mais nada. Embora a síndrome seja um tipo de estresse, sua especificidade está na causa: ela é, necessariamente, realacionada à atividade laboral. “A pessoa sente-se mal só de pensar em ir para o trabalho”, disse Sandra Calais, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia da Unesp de Bauru, em entrevista à TV da universidade.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva explicou ao Canal Mentes em Pauta que a Síndrome de Burnout costuma se instalar entre os profissionais que não têm condições de desenvolver minimamente seu trabalho. Um exemplo clássico é a situação dos médicos que vão trabalhar e se deparam com falta de equipamentos, remédios, insumos e sequer têm linha de sutura para atender as urgências e emergências. O problema se agrava ainda mais quando pacientes, com razão irritados por não receberem atendimento, despejam sua insatisfação em cima do profissional à sua frente.  

A psicóloga Sandra Calais lembra que vários outros fatores podem fazer a pessoa desenvolver Burnout, como é o caso de quando se trabalha com chefias tóxicas ou de quem sofre muita pressão por produtividade e precisa dar conta de tarefas excessivas e fazer horas extras sucessivas. Outros fatores relacionados à atividade laboral podem promover estresse constante, como é o caso de quem trabalha em áreas de risco e sente sua segurança ameaçada de forma constante. Muitas vezes, diz a psicóloga, o trabalhador não tem meios de se livrar da situação, mudando de emprego ou profissão, porque precisa sobreviver e pagar suas contas.

O fato é que, não raro, a continuidade das péssimas condições de trabalho e a recorrência do ambiente tenso acabam causando depressão profissional. Sandra Calais ainda faz uma observação: a síndrome costuma se desenvolver só em pessoas competentes e dedicadas ao trabalho, que se preocupam e querem realizar suas tarefas de forma correta. “Os que estão nem aí para o trabalho, não sofrem de Burnout”, disse.

Sintomas

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva explica que a Síndrome de Burnout não é qualquer insatisfação relacionada ao trabalho. A doença envolve aspectos físicos como exaustão, pressão alta, mudanças no regime de sono e alimentação, irritabilidade, dificuldade em se relacionar com o outro, instabilidade emocional e outros sintomas provocados por alterações bioquímicas no organismo, como a liberação de cortisol.  

Quem está com Burnout passa por uma alteração mental, de fato, segundo a psiquiatra. Pensa que tudo vai dar errado, tem alterações cognitivas, apresenta dificuldade de atenção e de concentração, passa por grande perda de produtividade. A diferença entre o quadro de Burnout e de depressão é que a síndrome tem uma causa nítida relacionada ao trabalho, muito embora possa se agravar como estresse profundo e colocar a saúde mental em risco.

Conheça os principais sintomas de Burnout:

   - Fadiga. Não é um mero cansaço. Este vai embora após um período de sono e descanso, mas a fadiga é persistente. Nenhum sono, relaxamento ou alimentação é capaz de fazer a pessoa se sentir melhor.  

   - Alterações no sono e na alimentação. Um dos primeiros sinais costuma ser a perda de sono e de apetite. Tais alterações podem estar associadas ao negligenciamento dos hábitos de higiene e à paralisação de atividades físicas.  

   - Perda de desempenho. A performance no trabalho diminui de forma contínua e paulatina, levando a pessoa a produzir cada vez menos e com pior qualidade.  

   - Perda da paciência. Os sentimentos ficam à flor da pele.  A pessoa tende a se tornar amarga. Frustração, raiva, culpa, irritação, pessimismo, sensação de vazio ou de pavor podem emergir com frequência.  

   - Perda da vida social. O esgotamento emocional costuma levar a pessoa a não ter energia para estar com quem gosta, levando ao afastamento de parentes e amigos. Conflitos interpessoais com a família, filhos e companheiros tendem aumentar.

   - Falta de esperança. Costuma se manifestar por meio de uma sensação de vazio, de distanciamento e de que nada pode ser feito para a vida melhorar. O prazer se esvai porque nada mais importa, nem faz sentido.

   - Manifestações na pele. É comum que disfunções mentais sejam acompanhadas de manifestações na pele, porque na formação do embrião humano, pele e cérebro são desenvolvidos ao mesmo tempo, a partir de uma mesma origem.

Como tratar

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A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Frame do vídeo Burnout, do Canal Mentes em Pauta, YT

Antes de tudo, é preciso procurar profissionais que saibam tratar a doença. Do ponto de vista médico, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva diz que é fundamental realizar uma série de exames para detectar o tratamento adequado. Primeiramente, é preciso mapear a saúde física,  já que o estresse baixa a imunidade e pode promover alterações cardíacas, respiratórias, digestórias e outras mais. Cada aspecto precisa ser tratado. Após o mapeamento físico, é preciso fazer o psíquico para o médico definir qual medicamento é mais eficiente  para o paciente, já que as pessoas têm características mentais próprias. Por exemplo: algumas desenvolvem aspectos suicidas, outras não.  

Do ponto de vista da psicoterapia, a psicóloga Sandra Calais diz que, entre outras coisas, é preciso fazer atividades físicas e ocupacionais. Segundo ela, o paciente tem que tirar o foco do trabalho que promove o estresse, para realizar, no tempo que lhe resta, coisas que goste, como jardinagem, artesanato, ou qualquer outro afazer que traga satisfação. A professora da Unesp de Bauru também explica que é interessante a pessoa detectar o que a faz infeliz no trabalho, pois uma mudança de setor, de chefia, de emprego, ou até mesmo de profissão pode melhorar a saúde mental e física. Ainda segundo ela, licença de trabalho costuma não resolver o problema, porque, no retorno ao ambiente laboral, a situação pode piorar. Na Síndrome de Burnout, diz Sandra Calais, não se fala de cura, mas de mudança de ambiente, de forma que quem é acometido pela doença precisa identificar os espaços em que se sente mais feliz, tranquilo e adaptado.

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