04 Setembro 2020
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Davi Kopenawa Yanomami na Festa Literária de Paraty (Flip) em 2104 (Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil, Licença Creative Commons)

Os yanomami são um dos maiores grupos ameríndios da Amazônia que conservam em larga medida seu modo de vida, define o antropólogo Bruce Albert. Bruce, que é francês, nascido no Marrocos, viaja à terra yanomami quase todos os anos há quatro décadas. Ele conta no livro A Queda do Céu, em coautoria com Davi Kopenawa, que os yanomami constituem uma sociedade de caçadores-coletores e agricultores, com população total estimada em 33 mil pessoas, vivendo em 640 comunidades. Ocupam um espaço de floresta tropical de aproximadamente 230 mil quilômetros quadrados e o seu território está localizado na Serra Parima, divisor de águas entre o rio Orinoco, no sul da Venezuela, e a margem esquerda do rio Negro, no Norte do Brasil. Em território brasileiro, os yanomami vivem em partes do estado do Amazonas e também de Roraima, sempre em regiões de floresta.

Bruce Albert e Davi Kopenawa têm uma longa história de amizade e lutas compartilhadas, como a que resultou na demarcação e homologação do território yanomami em 1992. A conquista expulsou, na época, 40 mil garimpeiros da região. Devido à sua atuação, Davi sofre ameaças de morte desde 2014. Atualmente, o número de garimpos ilegais de ouro voltou a crescer, levando até os yanomami a pandemia de Covid-19, além da contaminação por mercúrio  (metal pesado usado no garimpo que contamina rios, animais e humanos) e malária (disseminada pela derrubada da floresta nas áreas de garimpo).

O livro A Queda do Céu traz a história e a sabedoria de Davi Kopenawa. As informações foram confiadas a Bruce Albert por meio de conversas gravadas ao longo dos anos. Posteriormente, Bruce escreveu o livro, originalmente em francês, cuja primeira edição ocorreu na prestigiosa coleção Terre Humaine em 2010. O livro ganhou versão inglesa pela Harvard University Press (The Falling Sky: words of a yanomami shaman) em 2013, sendo lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2015.

Bruce Albert e Davi Kopenawa tinham pouco mais de 20 anos quando se conheceram em 1975. Depois de décadas de convívio, Davi pediu ao antropólogo que pusesse suas palavras por escrito para que encontrassem um caminho e um público longe da floresta. Desejava não apenas denunciar as ameaças que sofrem os yanomami e a Amazônia, mas também, como xamã, lançar um apelo contra o perigo que a voracidade desenfreada do "Povo da Mercadoria", como ele chama os homens brancos, faz pesar sobre o futuro do mundo humano e não humano. Palavras como essas: "se formos viver em suas cidades, seremos infelizes. Eles acabarão com a floresta e nunca mais deixarão nenhum lugar onde possamos viver longe deles. Não poderemos mais caçar, nem plantar nada. Nossos filhos vão passar fome. Quando penso em tudo isso, fico tomado de tristeza e raiva (…) Nós, yanomami, defendemos a terra-floresta e suas montanhas. Queremos que continue com saúde e inteira. Queremos também que yanomami e brancos vivam sem brigar nem guerrear por causa da terra, do ouro, dos minérios. Queremos que todos possam permanecer vivos juntos por muito e muito tempo".

Napë (homens brancos) trazem doenças

Com estimados 64 anos, Davi Kopenawa é uma importante liderança yanomami. Nasceu por volta de 1956 em Marakana, grande casa comunal onde vivem aproximadamente duzentas pessoas e está situada próxima ao rio Toototobi, no extremo norte do estado do Amazonas. Segundo a ONG Survival, os yanomami usam a área central para atividades em grupo como rituais, festas e jogos. Além disso, na parte tapada, cada família tem sua própria fogueira onde o alimento é preparado e cozido durante o dia e as redes são armadas em troncos fincados no chão.

Quando criança, Davi Kopenawa viu seu grupo de origem ser dizimado por duas epidemias sucessivas de doenças infecciosas propagadas por agentes do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e depois por membros da organização norte-americana New Tribes Mission. Davi se rebelou contra a influência dos missionários no final da década de 1960, após ter perdido a maior parte dos seus parentes durante uma epidemia de varíola transmitida pela filha de um dos pastores, de acordo com as memórias de Davi e as informações levantadas pelo antropólogo Bruce Albert. Adolescente e órfão, Davi deixou sua região natal para trabalhar em um posto da Fundação Nacional do Índio (Funai), às margens do rio Demini. Lá, se esforçou-se para "virar branco". Contraiu tuberculose e ficou hospitalizado. Nessa época, aprendeu rudimentos de português.

Em 1976, após a abertura da Perimetral Norte (rodovia federal BR-210), Davi foi contratado como intérprete da Funai. Durante alguns anos percorreu toda terra Yanomami tomando consciência de sua extensão e unidade cultural, para além das diferenças locais. Cansado dessa peregrinação de intérprete, casou-se com a filha do "grande homem" (pata thë) da comunidade yanomami denominada Watoriki (Montanha do Vento). Este xamã renomado iniciou-o em sua arte e tornou-se um conselheiro para Davi. Desde o final da década de 1970, Davi reside na comunidade de seus sogros, no sopé da montanha Watoriki, na margem direita do rio Demini, a menos de 100 km a sudeste do rio Toototobi, no estado do Amazonas.

Comissão Pró-Yanomami

Na década de 1980, Davi Kopenawa aproximou-se de membros da Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), como Bruce Albert e a fotógrafa Cláudia Andajur, e associou-se a eles na campanha pela demarcação e homologação das terras yanomami. Com o apoio da ONG, Davi participou de assembleias da primeira organização indígena do Brasil – a União das Nações Indígenas (UNI), fundada poucos anos antes. Em 1988, Davi Kopenawa recebeu o prêmio Global 500 das Nações Unidas por sua contribuição à defesa do meio ambiente. A partir de 1989, Davi Kopenawa viajou para Londres, Paris e Nova Iorque, em busca de apoio para a preservação da floresta onde vivem os yanomami e também de ajuda para pressionar contra o garimpo que degrada o território. Em 2004, ele criou a associação Hutukara (natureza, em português) que representa a maioria dos yanomami no Brasil.

Davi tem seis filhos e quatro netos. Vive com a mulher, Fátima, e os filhos menores em um setor da grande casa coletiva de Watoriki, como todos os outros membros da comunidade. É um xamã respeitado e foi condecorado com a Ordem do Mérito do Ministério da Cultura em 2015.
Em 4 de dezembro de 2019, Davi Kopenawa Yanomami recebeu o prêmio Right Livelihood Award em Estocolmo, Suécia, "pela corajosa determinação em proteger as florestas e a biodiversidade da Amazônia e as terras e a cultura de seus povos indígenas". O prêmio de um milhão de coroas, ou 430 mil reais, a serem usado na causa agraciada, existe desde 1980 e é concedido anualmente para premiar pessoas que oferecem soluções práticas para os desafios mais urgentes do mundo atual.

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