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26 Junho 2020
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Professora Aline Harris, da E.M. Cruzada São Sebastião (4ª CRE)

Um dos grandes desafios do setor de Educação tem sido a manutenção do contato com os alunos, durante o período em que eles estão em casa por causa da pandemia da covid-19. Mas na Rede Municipal de Ensino do Rio de Janeiro, vários professores têm conseguido, com muitaa criatividade, conquistar o interesse de suas turmas, mesmo à distância. Bom exemplo disso são Priscilla Almeida, que dá aula para o 3º ano do Ciep Gregório Bezerra (4ª CRE), na Penha, e de Aline Harris, que ensina nas turmas do 3º ano e do 4º ano carioca da E.M. Cruzada São Sebastião (4ª CRE), em Parada de Lucas. Ambas têm proposto atividades pela internet, com adesão de praticamente 100% de seus alunos.

Em comum entre as duas, o gosto de trabalhar com múltiplos recursos pedagógicos que facilitam a aprendizagem e a comunicação com os alunos. Aline, por exemplo, entre outras coisas, utiliza jogos para auxiliar o processo de alfabetização. “Eles têm acesso a um mundo de YouTubers, canais, jogos com gráficos realistas... Se não pegarmos esse caminho, fica difícil conquistar a atenção das crianças”, avalia. Já Priscilla gosta de usar vídeos para introduzir alguns assuntos em sala de aula, pois as imagens ajudam na compreensão de conceitos.

Ter, no celular, a lista de contato dos responsáveis, com os quais já trocavam mensagens sempre que necessário, também facilitou o trabalho de ambas, quando a pandemia começou. Aline Harris explica que já usava o WhatsApp para se comunicar com os pais em situações emergenciais, como conflitos na comunidade, ou para tirar alguma dúvida. Quando as aulas presenciais foram suspensas, o contato se intensificou e virou peça-chave.

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Professora Priscilla Almeida, do Ciep Gregório Bezerra (4ª CRE)

Priscilla Almeida também recorreu ao grupo de pais no WhatsApp, assim que o período de isolamento social começou. “Fiquei muito preocupada com a situação e logo corri para perguntar aos pais qual seria a melhor forma de explicar e de passar atividades para as crianças. Dei algumas opções de plataformas digitais e redes sociais. A maioria preferiu vídeo no Youtube pelo fato de o pacote de dados deles permitir que acessem o aplicativo à vontade”, conta.

Sem medo de arriscar

Está enganado quem pensa que Priscilla já tinha experiência em fazer vídeos ou preparar videoaula. “A necessidade é que me empurrou para essa aprendizagem. Eu tinha que atender meus alunos. Fiquei três dias inteiros pesquisando as opções que melhor se encaixavam na minha realidade”, explica. Poucos dias depois, ela postou seu primeiro vídeo, tendo sido uma das primeiras professoras da Rede Municipal a fazer isso durante a pandemia.

O fato chamou a atenção de outros professores e professoras que a seguem no Instagram. Pediam para ela ensiná-los a produzir videoaulas e atividades por meio de vídeo. “Decidi, então, postar um vídeo para mostrar que não é preciso nada mirabolante. Basta arrumar um cantinho em casa, dominar algumas ferramentas digitais e produzir conteúdos mais lúdicos e mais curtos do que em sala de aula”, conta.

Para surpresa de Priscilla, o vídeo Como montar uma videoaula teve milhares de acessos (mais de 68 mil no momento de escrever esta reportagem). “Até melhorei minhas técnicas depois disso. Aprendi a resolver, por exemplo, o problema das sombras na iluminação”, observa. Seu canal no YouTube também tem milhares de inscritos: quase 5 mil, um número exponencialmente maior do que seus 26 alunos do 3º ano.

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Frame de videoaula produzida por Priscilla sobre animais vertebrados e invertebrados

Cada videoaula produzida por Priscilla é acompanhada de uma folha de atividades, que ela posta no WhatsApp, na plataforma Teams e no seu blog. Os alunos também têm a tarefa de resolver as questões do Material de Complementação Escolar (MCE), produzido pela Secretaria Municipal de Educação (SME). A resolução de todas as atividades é enviada para ela, semanalmente, por meio de fotos dos exercícios.

Segundo Priscilla, a devolutiva da turma às atividades propostas tem sido excelente. Apenas três não estão acompanhando porque não têm acesso à internet, sendo que um deles consegue fazer alguma atividade, de vez em quando, pelo celular da vizinha.

Com afeto e imaginação

Assim que as aulas da Rede Municipal foram suspensas em função da pandemia da covid-19, a professora Aline Harris, da E.M. Cruzada São Sebastião, começou a utilizar os formulários do Google para fazer atividades com os alunos: “Foi o que achei mais fácil e viável naquele momento, até porque eu imaginava que o isolamento só duraria umas duas semanas”.

Com o passar dos dias e com o início da publicação do MCE pela SME, ela percebeu que precisava de novas ferramentas para se comunicar com a turma. Aline diz que, em sala de aula, sempre buscou construir uma relação afetiva com os alunos, promovendo brincadeiras, atividades e rodas de conversa que envolvessem os sentidos e a imaginação. “Meu maior desafio, naquele momento, era como manter a proximidade afetiva à distância”, conta.

Aline chegou à conclusão que trabalhar o MCE e produzir um vídeo lúdico por semana seria a melhor solução. Assim, nasceu o canal Turma da Aline - Fica em Casa. “Creio que o vídeo é a forma mais democrática de chegar a eles, porque a postagem no YouTube permite a visualização de todos e não consome a memória dos celulares. Além disso, envio o link do MCE pelo WhatsApp, indicando qual atividade devem fazer a cada dia”, explica.

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Frame do vídeo em que Aline ensina a fazer boneca Abayomi com saco plástico

Tal como Priscilla Almeida, a professora da E.M. Cruzada São Sebastião também nunca tinha produzido uma atividade em vídeo. “Esse período em casa tem sido de muita pesquisa. Como fazer a edição das imagens? Em qual aplicativo? Como usar a música? É um trabalho incessante, mas é a forma que encontrei para me adaptar à realidade da pandemia”, explica. O resultado desses esforços tem sido um alto índice de resposta de suas turmas. Do total de seus 56 alunos – 30 do 3º ano e 26 do 4º ano carioca, ela só não mantém contato regular com cinco deles.

Chama a atenção nos vídeos de Aline, a maneira leve e descontraída de se comunicar, cantando (ela também é musicista), contando histórias e propondo brincadeiras, como a da “mímica dos balões”, em que ela explica a linguagem dos balões das histórias em quadrinhos e propõe uma dinâmica para ser feita em casa. “Meus vídeos espelham a maneira como conduzo minhas aulas, sem formalidades. Acredito na educação pelo afeto. O afeto transforma”, diz.

Após a pandemia

O que fazer com a aprendizagem das tecnologias e da linguagem de vídeo, após o reinício das aulas presenciais? Priscilla Almeida acredita que a experiência reforça a necessidade de se trabalhar com múltiplos recursos pedagógicos e as várias linguagens. Além disso, ela crê que tudo o que foi postado durante a pandemia será útil no período de reforço e revisão que virá após a reabertura das escolas: “Os alunos poderão assistir às aulas quantas vezes quiserem para tirar suas dúvidas”.

Já Aline afirma que o período de educação remota fortaleceu sua convicção sobre a necessidade de fazer bom uso dos recursos tecnológicos. A ideia é manter o canal do YouTube e fazer novas produções junto com os alunos. No ano passado, ela filmou algumas atividades da feira literária realizada pela escola e percebeu que as crianças ficaram muito empolgadas e sensibilizadas ao se verem no vídeo, de forma que acredita que a proposta de produzir para o canal vai mobilizar as turmas e deixar os alunos felizes. “Quem sabe, assim, não despertamos o interesse deles para o cinema, a fotografia, o audiovisual?”, especula.

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