24 Novembro 2020
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Poesia epopeia
Tábua de argila datada do terceiro milênio a.C. com trecho da Epopeia de Gilgamexe, a poesia escrita mais antiga da história. Foto Osama Amin, Wikicommons, CC-BY-SA-4.0

Registros históricos indicam que a poesia é a mais velha entre as artes da palavra. O mais antigo poema que se tem notícia, a Epopeia de Gilgamexe (ou Gilgamés), data do terceiro milênio a.C. e foi encontrado na atual região do Iraque, em uma tábua de argila escrita com caracteres cuneiformes. Desde então, a poesia tem cumprido diversas funções sociais e adquirido diferentes características estéticas e formais.  Na Antiga Grécia, ocupava papel de centralidade na transmissão da cultura, fosse com os mimos recitando, nas ruas, a história do povo grego narrada pelos poemas épicos Ilíada e Odisseia, de Homero, fosse com os atores declamando, nos anfiteatros, os versos das tragédias e comédias. Hoje, a poesia não tem a centralidade cultural que ocupou em algumas sociedades preponderantemente orais, cujos versos rimados eram fundamentais para a memorização. Mas permanece viva e vibrante, especialmente em alguns contextos psicossociais e quando retoma seus fortes vínculos com a oralidade.

O trabalho com Poesia Falada e com Slam, desenvolvido em algumas escolas da Rede Municipal do Rio de Janeiro, tem se constituído em verdadeira ferramenta de denvolvimento da expressão de alunos, especialmente aqueles afetados por grande timidez, baixa autoestima, indisciplina e outros comportamentos oriundos do opressivo contexto social ao qual estão submetidos.  Tal trabalho, encabeçado pelo Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares (NIAP) da Secretaria Municipal de Educação (SME), é uma das respostas às constantes demandas por psicólogos, feitas pelas escolas. Constituído por uma equipe que envolve professores, assistentes sociais e psicólogos, o NIAP desenvolve diversas ações, sempre em parceria com os profissionais das Coordenadorias Regionais e unidades escolares. Ao contrário das solicitações por atendimento individualizado, o projeto é desenvolvido de forma coletiva e tem tido resultados animadores e estimulantes, que rebatem em múltiplas direções. A poesia, com seu poder de penetrar o mundo sensível, tem sido meio não só para conquistar os alunos. Mas também para desenvolver a habilidade expressiva e a capacidade reflexiva, que se transformam em voz e acendem a chama do senso de cidadania.  

Aliás, um dos grandes vieses da poesia na sociedade contemporânea é sua relação com a cidadania, com “a existência e a resistência”, como lembra a poeta e escritora de literatura infantil Ninfa Parreiras. Essa relação poética não é nova, mas, no contexto atual,  tem ganhado um certo tom de “empoderamento” de segmentos oprimidos da sociedade. Essa poesia pode ser vista nas redes sociais e costuma ter características multimídia. Uma das mais populares poetas desse estilo literário é a indiana Rupi Kaur, que vive no Canadá e começou a escrever seus versos no Instagram, acompanhados de fotos e ilustrações. Tal como a brasileira Ryane Leão – que também publica poesias no mesmo aplicativo e utiliza imagens para amplificar sentidos, seus versos são marcados pela denúncia de abusos, preconceitos e tabus que atentam contra o direito feminino. Essa relação da poesia com a cidadania se estende a outros temas e pode ser vista em diferentes mídias e redes sociais, como o YouTube, onde rappers e poetas de Slam narram as mazelas da existência cotidiana.

Poesia Falada  

Poesia palco
Aluna da Rede Municipal do Rio de Janeiro se apresentando em sarau de Poesia Falada e Slam. Arquivo da equipe do Pronaipe/Niap-SME

Todos os professores e psicólogos da Rede Municipal entrevistados por esta reportagem falaram sobre a “potência da poesia” para explicar o projeto Poesia Falada, que vem sendo desenvolvido pelo NIAP. A potência a qual se referem tem vários sentidos: romper a couraça da timidez, penetrar nas subjetividades, promover avanços na capacidade expressiva e reflexiva, aumentar a confiança de alunos que se sentem incapazes  de aprender. “Nosso objetivo não é ensinar métrica e rima, mas desenvolver o sujeito da fala, estimular o aluno a refletir, a interpretar o que lê, a exercitar sua voz”, explica Kátia Rios, gerente do NIAP.

O ponto de partida para a construção do projeto ocorreu em 2013, quando a SME fez uma parceria com a Casa Poema, criada pela poeta Elisa Lucinda. O objetivo era desenvolver um projeto chamado Versos da Liberdade, que consistia em trabalhar a Poesia Falada entre multiplicadores da Rede. A psicóloga do NIAP Camilla Martins de Oliveira estava na primeira turma e explica o conceito do trabalho em sua dissertação de Mestrado (Poesia Falada, a arte de deflagrar tráfefos no cotidiano escolar): “O objetivo era que a poesia fosse falada como uma conversa, da forma mais natural possível, sem empostamento de voz ou qualquer tom solene. O processo de decorar o poema não era uma tarefa mecânica, mas repleta de sentido. Constituía-se de um mergulho nas palavras, na tentativa de compreender o texto, de acessar suas principais ideias e expressá-las. Não se tratava de encarnar um personagem, mas de mergulhar em si próprio, para acessar os sentimentos que o poema lhe convoca”.

Poesia Jair
O psicólogo Jair Augusto Filho, do Pronaipe, acompanha atividade de leitura de poesia. Acervo da equipe do Pronaipe/Niap-SME

Desde então, outros profissionais vinculados ao NIAP e ao Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas (Proinape) vivenciaram o método da Poesia Falada e passaram a multiplicá-lo entre os professores, além de disponibilizar oficinas em escolas selecionadas pelas Coordenadorias Regionais de Educação (CREs). “É um projeto muito potente. Trabalhamos, principalmente, no plano da oralidade. E como todos falam, atingimos até mesmo quem ainda não se alfabetizou. Ao desenvolverem a capacidade de expressão, os alunos começam a se posicionar melhor e a dizer para o outro aquilo que pensam”, avalia a psicóloga do Pronaipe, Júlia Ferraz Cardoso.

Mas como a poesia chega aos alunos? A professora do Pronaipe Andreia Moraes, que integra o projeto desde 2015, explica: "O poema deve ser escolhido pelo estudante. É oferecido um acervo variado de poesias, desde as clássicas às contemporâneas, com linguagens diversificadas, podendo ser, também, letras de músicas. A poesia escolhida deve afetar o aluno e, muitas vezes, isso acontece de maneira inconsciente". Ela ainda explica que as poesias ofertadas aos estudantes devem contemplar uma variedade de assuntos de relevância política, social, temáticas relacionadas a preconceito, à diversidade, à desigualdade social e de gênero e ainda outros assuntos do interesse dos educandos.  

Jair Augusto Filho, psicólogo do Pronaipe, lembra que o trabalho não é fácil de ser implantado: “Os alunos não estão acostumados a ler poesia em voz alta, a usar o corpo, a fazer a brincadeira da expressão poética, a lidar com a dimensão teatral da poesia. Também têm um certo preconceito com essa forma de arte, embora tudo isso se quebre, quando começam a perceber a força, a ludicidade, a alegria e a diversão da leitura do texto poético”.   

Slam

Em 2017, ao realizar oficinas na escola Coelho Neto (6ª CRE), em Ricardo Albuquerque, Jair Augusto Filho se surpreendeu com o rumo do trabalho. Embora a proposta original fosse a de estimular a oralidade, os alunos começaram a sentir vontade de escrever, tão logo entenderam o jogo expressivo da poesia. Quando percebeu que “produziam coisas muito legais”, como ele mesmo definiu, passou (junto com a parceira de trabalho, a professora Andreia Moraes) a buscar meios para publicar um livro com a produção poética dos estudantes da escola.

Segundo Jair Augusto Filho, o livro produziu efeitos importantes no projeto do NIAP. Antes, trabalhavam com poesias adultas.  Mas, a partir de então, começaram a circular, entre outras escolas, a publicação dos alunos da Coelho Neto. “Essas poesias falam da saída da infância e da entrada na adolescência, da realidade deles, de questões do amor, da sexualidade, da violência do território. Quando isso chega a outras escolas, tem um efeito multiplicador e de contágio muito grande”, explica.  

Poesia lanc livro
A assistente social do Pronaipe Simone Amaral fotografa alunos e equipe de trabalho, por ocasião do lançamento do primeiro livro de poesias da escola Coelho Neto. Arquivo da equipe do Pronaipe/Niap-SME

No ano seguinte, Jair Augusto Filho entra em contato com a metodologia de apresentação do Poetry Slam, batalha de poesia surgida na periferia de Chicago, Estados Unidos, constituída de algumas regras. Entre elas, a escolha aleatória, na  plateia, dos jurados que vão definir o vencedor da competição e a abolição de recursos musicais, de figurinos e de cenários. Provavelmente pela identificação com as periferias norte-americanas, o Slam teve grande receptividade em outras escolas.  Em parceria com os grêmios estudantis, começaram a realizar batalhas interescolares em que os próprios alunos são os jurados. A gerente do NIAP, professora Kátia Rios, destaca, inclusive, a expectativa do grupo de que essas batalhas entrem para o calendário oficial da SME.

Pandemia

A pandemia de Covid-19 não é a melhor aliada da Poesia Falada. O desenvolvimento da oralidade e da expressão esbarra na dificuldade de muitos alunos acessarem a internet em atividades que demandam a realização de lives ou de vídeos. Mas a Poesia Falada não parou. Essa realidade não impediu que Karine Dull, por exemplo, desse continuidade ao projeto que iniciou este ano na escola em que trabalha como professora da Sala de Leitura, a E.M. Rotary (11ª CRE), na Freguesia (Ilha do Governador).  

Um dos trabalhos de poesia alinhavados por Karine Dull, em meio às dificuldades da pandemia, são as diversas frases produzidas pelos alunos sobre o que é ser criança. O trabalho foi feito em parceria com a professora de Língua Portuguesa Andreia Mendonça e a coordenadora pedagógica Débora Pereira da Silva. "Lançamos uma frase sobre o que é ser criança e cada aluno foi criando outra. Juntei as frases da melhor forma possível, a fim de criar um sentido, e editei um vídeo", conta a professora. O resultado é encantador, especialmente quando se leva em conta o contexto em que a escola está inserida.

Poesia sarauvirtual
Frame do sarau virtual realizado em 23/11/2020 pela equipe do Pronaipe/Niap-SME junto a alunos da Rede Municipal

O projeto do NIAP chegou na Rotary em função da baixíssima autoestima dos alunos: “Eles nunca acham que são capazes de realizar alguma coisa. Para eles, aquilo que fazem nunca é bom. Incentivá-los à distância é mais difícil do que presencialmente, mas mesmo assim estão se soltando, perdendo o medo de dizer ou escrever algumas coisas. Não temos (ainda) poetas na escola, mas sim pessoas que estão perdendo a capa rígida de que nada sabem fazer. Sentirem-se capazes: isso é muito significativo para mim, porque o projeto só começou esse ano, pouco antes do início da pandemia”, diz Karine Dull.

Aliás, o sentimento de estar realizando um trabalho significativo parece pertencer a todos os profissionais vinculados ao projeto: "Tivemos retornos dos alunos sobre o quanto a poesia pode modificar, despertar ou até mesmo fazê-los compreender questões relacionadas às suas existências. Uma aluna relatou que, a partir de algumas poesias, entendeu melhor o que era desigualdade de gênero. Um outro aluno se utilizou da poesia para expressar seus pensamentos e provocou uma mudança de olhar de alguns professores sobre o seu comportamento", relatou a professora Andreia Moraes, entre tantos outros exemplos que ela e outros profissionais envolvidos com o projeto poderiam citar.  

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